Queres penetrar a fina agulha na pele, em cheio na vulnerável presa que te pertence, a
tua veia. Sorris e achas que fazes uma grande coisa enquanto empurras o líquido
frio e injectas em ti o pior.
- olha para ti, agora. Sentado a chorar por ela. Ela
faz de ti o que queres; ela assobia, tu vais. És o cãozinho dela, a sua mascote
que não exibe mas usa, curioso hein?
É isso que queres para ti? Uma simples e mera nua e
crua rudeza? A dor dessa humilhação e da frustração de lutas sem fim, ilusões
reais, visíveis a olho nú. Não precisas de nenhum microscópio nem de uma bata
para perceber que o único que está a injectar-se, és tu.
Injectas-te com ela, injectas-te com os teus vícios,
injectas-te com a tua preguiça, com o teu egoísmo. Injectas-te de inveja, e
deixas-te consumir pela necessidade de mais e mais. O teu corpo, por fora, está
melhor que nunca! Uau! Isso sim é estar em forma, e então e, aí dentro, como é
que se vai? Assiste-se no teu interior o processo de decomposição semelhante ao
de um cadáver; à excepção que os teus órgãos não estão liquefeitos nem cheiras
a ranço mas a podridão faz de ti seu refém, e o teu sistema imunitário está no
modo off. Foste esperto em baixar todas as guardas mais uma vez, e desligar o botão.
Arriscas a primeira, és corajoso, arriscas a segunda, perdes, és fraco,
arriscas a terceira, a quarta, a quinta, .., a décima vez e és estúpido.
Arranquei-te a seringa da mão e acredita quando te
agarro no queixo, te olho nos olhos e seriamente te digo que essa não é a
solução. Com um safanão, mando todo o arsenal que tinhas preparado para esse
estúpido ritual e bato-te, não com força, mas com frustração. Frustração de te
querer espancar, bater com tanta força, para ver se abrias a cabeça, se
aprendias alguma coisa. Desta vez não vai ser assim, não vais andar mais a
cambalear sempre pelas mesmas ruas, apagadas e a cheirar a mijo, com ratos a
comer restos do saco de lixo que os cães rasgaram.
Lava a cara, aliás, toma banho, esfrega-te, e larga
toda essa sujidade. Olha-te ao espelho. Veste a tua roupa preferida. Põe o teu
perfume. Penteia-te. Arranja a gola da camisola que está toda desajeitada.
Calça as tuas botas gastas e sujas e volta a olhar-te ao espelho. Veste o
casaco. Olha-te ao espelho. Sorri, e pensa simplesmente, que aquilo que tu és
poucos o são, poucos o serão e muitos o invejam, muitos o desconhecem, muitos o
admiram, muitos o protegem mas apenas tu o tens. Cuida de ti, gosta de ti, vive
por ti.