A natureza humana é engraçada. Todas as pessoas passam pelas mesmas experiências mas sentem e agem perante estas de maneiras tão diferentes. Alguns encontram um caminho positivo e saudável, outros afogam-se no seu próprio martírio e deixam-se abater, deixam-se espezinhar e rebaixar, acabando por se sentir um pedaço de lixo. Outros nem eles próprios sabem no que é que se enfiaram e cambaleiam pelas ruas sem qualquer destino; disfarçados de secretárias, senhores de fato e cabelo com gel, senhoras que lêm livros de auto ajuda no metro, com o idoso que olha com ar assustado para a jovem que brinca com o piercing da língua.
Eu, ando aqui, observo e vivo. Dou demasiada importância aquilo que já passou. É usual apontarem as consequências negativas que isso me traz, ainda assim, é-me inevitável. O passado é como uma casa antiga, onde entramos e somos derrubados pelo cheiro a velho, a solidão. Nas paredes, molduras protegem momentos de qualidade pouco ou nada semelhante ao que estamos acostumados. Perderam a cor como perderam a vida quem ali posa. Tudo mudou mas a casa onde viviam é agora onde estamos a cheirar paredes antigas. As experiências, os risos e as lágrimas que ecoaram nas paredes daquela casa, que caíram no tapete já ruço, abatido, cruzam-se agora contigo. É isto que sinto com o passado. Todos os dias visito aquele sítio, entro naquela casa e sinto aquele cheiro e vejo as pessoas. Toco as paredes e a minha voz repete-se.
Vê-se as mudanças e, tudo se cruza, tudo tem um quê de estar relacionado. As coisas são o que são e há uma insistência inconsciente em preferir ser-se cego a ver a verdade nua e crua como é.
Escondo-me nessa casa que há aqui, é o sítio onde me protejo, onde preservo tudo o que sou. É naquele canto que surgem pensamentos e palavras como a humidade e o pó surgem nas escadas de madeira daquela casa. Com o tempo, acumulam-se, como os sentimentos.
A parede branca, ansiosa de cor, que éramos no inicio, agora está pintada de uma mistela estranha. Há marcas de buracos, uns fundos outros mais apagados, pouco se vêm; parafusos? Quadros pendurados que foram arrancados? Fotografias? Guarda-se na imaginação de cada um. Há cor. Guarda-se na tua imaginação. A parede que somos é a parede que a nossa vida tem sido, desde que era branca, pura e virgem. A parede que somos é a parede que temos construído, a que a vida nos tem dado, com tons sombrios, quentes e frios. É uma mistela. Eu gosto de mistelas, mixórdias, misturas. Tem uma sonoridade diferente também.
A homogeneidade é chata e cansativa. A heterogeneidade é rebelde, diferente e louca. Conclui-se então que é uma parede com uma coloração de homogeneidade heterogénea passível de satisfazer as mais requintadas imaginações, no final, só eu a toco. Só eu a vejo. Só eu a conheço.
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