segunda-feira, 17 de novembro de 2008

E aqui, fico rodeada de perguntas interruptas, espero por resposta mas esta tarda a chegar.
Não chega, sequer.
Perguntar-me-ei, será que sou, será que sinto? Será que o que te digo é sentido?
Será que não passa de uma realidade consistente ou de uma mentira inconsciente?
Leva-me para o teu sítio, sei que a pureza que existe, aqui, existe.
Disso, tenho a certeza. O resto, não sei.
Leva-me a corrente que os meus braços, esses ficaram sem força.
Mas a minha mente;
Essa terá força para lutar.
Por quê?
Ficará por escrever e, quando a necessidade me pedir,voltarei para aqui, e silenciosamente, gritar para que me venhas socorrer.
Gritos em palavras não ditas, escritas, traduzidas para um olhar meigo, brilhante e sufocante.
por: sara
fotografia por: sara (Praga)

sábado, 15 de novembro de 2008

é o que sou não o que querem que seja.

é o que sou não o que querem que seja.
o frio da água encharca-me os pés,
mergulhados inconscientemente naquela poça do Largo do Chiado;
que me enche de alento.

que sensação duradoura e perfeita,a da minha própria companhia, no meio
da cidade afogada;
recheada de quem não conheço;
de quem me olha e lhe repugna a minha roupa molhada e
o meu cabelo a pingar.
esse alguém, não sabe a cascata de satisfação onde agora, mergulho.

este húmido e rasgado papel, amachucado,
onde escrevo, sentada nuns degraus de madeira,
que rangem;
à entrada de um velho prédio,
de onde vejo, uma cidade, uma pressa, lá fora.
aqui, estou bem.

e agora deixo-me sentada, neste silêncio
perturbado pela movimentada vida lá de fora,
neste silêncio perfeito, de bem estar, de mim.

a madeira da porta lascada,
o desgaste da vida.
ouço vozes desconhecidas, passos acelerados,
como numa tentativa de fugir à chuva que cai do céu cinzento.

os saltos dos sapatos de uma mulher, lentos,
como se não tivessem onde ir ou, para onde ir;
uma alma cheia de tudo, ou de nada.
desconheço. admiro.

na minha solidão alegre,
olho com outro olhar, a solidão deste prédio,
velho, triste;
abandonado,
que me aconchega na sua humildade.
por: sara

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Escuro

Escuro, repelente, este ambiente;
Solidão, aqui, tal como um inútil transeunte,
numa imensa metrópole.
Quero voltar onde vivi;
Quero voltar com quem sorri;
Quero libertar do meu corpo,
este Diabo que me corrói a alma,
não sei, não entendo.
Apenas desejo uma maré calma,
límpida.
Alguém me salve e me leve consigo;
numa rede de pescador, suave e velha.
Para uma praia de Luz, de abrigo.
Para uma praia, deixando-me lá;
com quem me salvou.
Não existe, não sei como alcançar;
nesta maré que se vê balançar.
Alguém me salve. Eu mesma.
Alguém oiça, o meu pedido de salvamento.

por: sara

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

aqui na orla da praia

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

Fernando Pessoa