quarta-feira, 14 de março de 2012

Fui lavar a Alma.

Esqueci-me do que eram estes momentos. Esqueci-me que podia vivê-los. Acho que no fundo não me esqueci - senão não estaria aqui sentada, onde estou. 
Simplesmente há muito que não me lembrava do quanto me fazem bem; fizeram-me falta, vocês, pá!
Procurei um lugar ideal para me sentar. Nenhum parecia suficientemente chamativo.
Farejava o sítio como um cão aflito para fazer as suas necessidades, a minha necessidade naquele momento era encontrar aquele metro quadrado, aquele bocado de cimento esbatido.
Umas grades rasgadas, meias camufladas pelos traseuntes que passam pelo rio e lhe são indiferentes. É ali.
Afastei a grade; quebrei o muro que me impedia a visão total daquela paisagem; daquele quadro pintado a óleo, com tanto cuidado. O vento é fresco, é suave, tem um aroma estranho; por vezes, parece mar por vezes, uma mistura de cheiro a sujo sente-se.
Mas naquele momento era aí que eu queria estar. Não tive noção disso até lá chegar, mas quando o encontrei, eu soube. 
Esse mesmo vento decidiu virar-se para mim, agora sim, cheira a rio; uma fresca brisa refresca as maças do rosto encarnadas, quentes pelo sol. 
Não oiço vozes, não oiço os carros, não oiço as obras, nem as buzinas, nem as vozes irritadas ao telemóvel ou a travagem repentina. Tudo isso está a acontecer, mas estou-lhes surda.
Não interessa agora. Estou demasiado ocupada a tentar traduzir e compreender as palavras da gaivota branca que está a quinhentos metros de mim. Voou; olho o céu, e fechando os olhos, sinto-me a flutuar. 
Estou agora no rio, de barriga para cima, braços e pernas esticados, abertos, a flutuar, de olhos fechados levada pelas ondulações ora mais fortes, ora suaves da água do rio Tejo.
Hoje estou assim. Não quero pensar. Não me apetece.
Este momento está-me a encher o peito; o copo que antes parecia vazio, parece agora meio cheio.
A gaivota passou aqui, de novo.
O rio sorri-me.
O sol sorri-me.
O vento sorri-me. 
As pessoas estão demasiado ocupadas para sorrir, mas mesmo assim, sorrio-lhes,
sorrio ao rio, sorrio ao sol, sorrio ao vento. À gaivota... E a ti.